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2 de outubro de 2017

“Ética da solidariedade”, a lógica da inclusão social

A existência de ricos e pobres não é algo “natural”, como escreveu o Papa Leão XIII na Encíclica Rerum Novarum (n. 11). A Doutrina Social avançou na compreensão sociológica e geopolítica deste fenômeno, entendendo que temos hoje “empobrecidos”.

Em sua homilia em Havana em 25 de janeiro de 1998 o então Papa João Paulo II denunciou a existência de um “sistema neoliberal capitalista” que impõe pesados fardos às nações mais frágeis fazendo com que “no concerto das nações haja ricos cada vez mais ricos, às custas de pobres cada vez mais pobres”, expressão que surgiu na reflexão dos Bispos latino-americanos em 1968, na Conferência de Medellín e foi repetido em 1979, no encontro de Episcopado em Puebla.

Um sistema econômico que exclui. A Exortação Apostólica “A Igreja na América” atribui ao sistema neoliberal a função ideológica justificadora da brecha crescente entre ricos e pobres (n. 56). Portanto, estamos não apenas diante de um mecanismo de organização econômica, mas diante de um “sistema ético e cultural”, como já havia denunciado João Paulo II na Encíclica Centesimus Annus (n. 39), imbuído de pseudo-valores que levam a sociedade a organizar-se de maneira excludente.

Mais perto de nós, o Papa Francisco é incisivo ao dizer “não” a uma economia de exclusão, à idolatria do dinheiro que governa ao invés de servir e a uma desigualdade social que gera violência. Por isso, para ele esse sistema é injusto em sua raiz porque promove o consumismo, a cultura do descartável e gera a desigualdade social.

Por uma lógica da inclusão social: a ética da solidariedade. A Igreja Católica, em sua Doutrina Social não tem soluções técnicas a propor (Sollicitudo rei socialis, 41). No entanto, à luz do Evangelho e da sua prática pastoral, indica o caminho da solidariedade e da paz (Igreja na América, n. 56). A mesma proposta já havia sido feita por João Paulo II na Centesimus annus (n. 49) afim de “superar a mentalidade individualista hoje difundida”.

O desafio é dirigido sobretudo aos países mais ricos, para que alterem seus estilos de vida, de consumo e de exercício do poder, em vista da sobrevivência da humanidade (idem, n. 58).

O Papa Francisco afirma que não haverá paz social enquanto não se eliminarem a exclusão e a desigualdade, que são as causas da violência que assistimos na sociedade local, nacional ou mundial (EG 59). Assim como no magistério social de João XXIII, o bem comum vem concretizado nas reivindicações sociais que têm a ver com a distribuição das rendas, a inclusão social dos pobres e os direitos humanos (EG 218).

Uma “ética da solidariedade”, como propõe a Doutrina Social da Igreja, exige que a solidariedade, fundamentada na busca do bem comum em sentido global, busque acima de tudo a valorização da pessoa humana e concretize os ideais de fraternidade e igualdade, operando acima da luta e interesses de classe. Exige, ainda, que se forme e se difunda uma “cultura da interdependência solidária”, a qual deve penetrar em todos os ambientes, sensibilizando poderes públicos e privados, bem como cada um dos cidadãos, para o compromisso com os pobres.

A solidariedade será eficaz quando tivermos entendido que não se trata de um simples gesto altruístico em direção aos outros, mas sim do cumprimento de um “débito” que cada um tem para com o outro, pelo simples fato que este é “pessoa humana” (Centesimus Annus, n. 34). Para aqueles que aceitam a visão cristã do mundo e da humanidade, o motivo profundo da solidariedade está na paternidade comum que nos faz todos irmãos e irmãs, com um destino comum ao qual todos devemos nos empenhar.

Pe. Antônio Aparecido Alves
Mestre em Ciências Sociais e Doutor em Teologia.
Pároco da Paróquia São Benedito, Alto da Ponte – SJC






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