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7 de agosto de 2017

Iluminar a humanidade desfigurada com o Cristo Transfigurado

A liturgia da festa da Transfiguração do Senhor nos coloca diante da manifestação da glória divina. Daniel contempla em sua visão um ancião cheio de poder, enquanto o Salmo 96 exalta a grandeza de Deus chamando O “Altíssimo, muito acima do universo”. É desta mesma glória que Jesus de Nazaré participa. Na “alta montanha”, lugar de encontro com Deus, “o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz”. A narrativa, elaborada nos moldes das teofanias (manifestações divinas) do Antigo Testamento, quer mostrar quem é Jesus: Ele é o cumprimento das Escrituras – daí o seu diálogo com Moisés e Elias –, o Filho muito amado de Deus, o Messias tão esperado. Na companhia de seus amigos – Pedro, Tiago e João –, Jesus quer semear esperança de um novo tempo.

Mas o convívio com Jesus não é somente glória. Imediatamente antes da transfiguração e, poucos versículos depois, acontecem o primeiro e o segundo anúncio da paixão (cf. Mt 16,21-28; 17,22-23). Curioso é que, justamente nesta festa, a piedade popular faz memória do Bom Jesus, que aparece açoitado e portando um manto vermelho, uma coroa de espinhos e uma vara com a finalidade de servir de zombaria – “Salve, rei dos judeus!” (Mt 27,29). Deus, no Tabor, nos apresenta Jesus transfigurado – “Este é o meu Filho amado, no qual ponho o meu agrado”. A humanidade, por sua vez, na pessoa de Pilatos, apresenta para Deus e para si mesma um Jesus desfigurado – “Eis o homem!” (Jo 19,5). Mas o Cristo maltratado não se parece com o ser humano criado à imagem e semelhança de Deus, está mais para a releitura que fazemos do profeta Isaías na Semana Santa: “desfigurado, não parecia homem” (Is 52,14). O transfigurado é o desfigurado!

O que isto significa? A existência em sua complexidade não é somente um “mar de rosas” tampouco “um vale de lágrimas”. Os mesmos três apóstolos que presenciaram a cena do monte Tabor, foram os que acompanharam Jesus, também a seu convite, ao monte das Oliveiras; foram testemunhas privilegiadas de sua glória e sua agonia. Quando contemplamos o Cristo transfigurado, temos a oportunidade de nutrir a fé naquele que inspira superação e vitória. Deus nos diz se referindo a Jesus: “Escutai-O!” E qual a palavra de Jesus? “Levantai-vos e não tenhais medo!” Ele sabe que a vida não é feita só de glórias e quer nos encorajar para os momentos de crise e cruz. A transfiguração de Jesus é como uma injeção de ânimo para cada um de nós. Em contrapartida, quando contemplamos o Cristo desfigurado, deveríamos dar espaço para nascer a esperança em nosso coração. A humanidade massacrada pelo pecado não raras vezes nos faz acreditar que estamos absolutamente condenados a um inferno nada abstrato, mas que nos toca diariamente. No entanto, Jesus também crê que a vida não é somente tragédias e maldades, seu olhar de homem sofrido, provado na dor, nos penetra para recordar: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). É a páscoa de Jesus Cristo, na qual estamos inseridos pelo Batismo, que nos dá fôlego e nos impulsiona. “Efetivamente, Ele recebeu honra e glória da parte de Deus Pai”, lembra a Segunda Carta de Pedro. Não acreditamos, pois, em “fábulas habilmente inventadas”!

Enfim, a vida é cheia de altos e baixos e nós devemos nos posicionar diante dela: queremos uma humanidade transfigurada pela graça divina ou nos contentaremos com uma humanidade desfigurada pelo nosso pecado? A experiência com Jesus fulgura para nós como “lâmpada que brilha em lugar escuro”. Deixemo-nos interpelar por Cristo, escolhamos o caminho por Ele proposto, ainda que nos sejam impostas derrotas e, quem sabe, teremos a ousadia de emprestar as palavras de Darcy Ribeiro – “Meus fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”. Entre luzes e cruzes, entre Tabor e Getsêmani, nossa caminhada vai tomando corpo: “indo e vindo, trevas e luz, tudo é graça, Deus nos conduz”.

PE. ÉVERTON MACHADO DOS SANTOS
Vigário da Paróquia São Dimas

Ó Bom Jesus, transfigurado pelo Pai e desfigurado pelos nossos pecados, tende piedade de nós e nos ajude a se levantar e não ter medo de trilhar o caminho do Evangelho. Dai-nos a graça de alimentarmos nossa fé na hora da glória para não faltar esperança na hora da cruz. Vós que viveis e reinais com o Pai, na unidade do Espírito Santo.






CatolicaSJC Mês Missionário

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